Notas complementares sobre as fontes utilizadas


Os dados obtidos, acerca da rede familiar e comercial que foi o berço social de Maia Ferreira e acerca dos livros a que tal rede tinha acesso, foram confrontados com bibliografia sobre o ambiente literário e cultural do Rio de Janeiro na mesma época, a par da consulta de alguns anúncios de jornais cariocas e catálogos de editores e livreiros atuantes naquele mercado. As diferenças não me pareceram significativas, para além do quantitativo (mais locais de leitura, mais apetrechados, no caso do Rio). Nem mesmo no que diz respeito à circulação de certo tipo de livros, apesar da existência de livrarias respeitáveis entre os cariocas. Leia-se este anúncio do Jornal do comércio, do Rio de Janeiro, datado de 7-3-1855 (p. 4):

HISTORIA NATURAL, Etc. 
No Largo do Paço, n.º 1, loja, em baixo do Hotel Pharoux há grande sortimento de pássaros cheios de quadros com insectos e borboletas, uma grande variedade de flores de penas e de escamas e de rendas da Bahia, tudo por preços muito razoáveis. Há também para vender novelas em inglês dos melhores autores chegados ultimamente e charutos de manilha

Em contraposição à escassez de fontes angolanas até 1850, havia no Recife o rico veio de informação que eram as listas de livros para venda e as listas de procuras por anúncio no Diário de Pernambuco (publicação sem qualquer equivalente no mercado angolano da época). Para além disso, registei ofertas à Biblioteca Pública de Olinda e ao Gabinete Literário do Recife e consultei o espólio antigo do Gabinete Português de Leitura dessa cidade, bem como consultei alguns artigos, ou algumas obras onde se liam referências a autores conhecidos da época (por causa das leituras deles). A inclusão do Gabinete Português de Leitura é fundamental porque, apesar do incêndio que sofreu, regista ainda bibliografia daquele tempo, mesmo de alguns anos antes da sua própria fundação. Segundo Ubiratan Machado, “o Gabinete Português de Leitura do Recife foi frequentado assiduamente pelos rapazes da Academia do Direito: Vitoriano Palhares, Tobias Barreto, Castro Alves” (Machado, 2001 pp. 204-205). Por aí se pode aquilatar a sua importância na altura, muito próxima da que pesquiso. Castro Alves veio estudar para o Recife em 1862, Tobias Barreto no ano anterior. Sílvio Romero, pensador genuíno nascido em 1851, chegou à capital pernambucana em 1868 para estudar Direito.

Apesar de alguns anos depois de Castro Alves ou Tobias Barreto, o testemunho de Sílvio Romero, contraposto à lista bibliográfica estudada, é sintomático. O pensador, cuja bibliografia começa em 1869, indica os autores e obras que leu no Recife, no tempo da sua formação: Emílio de Lavelley 
acerca dos Niebelungen e da antiga poesia popular germânica, um ensaio de Pedro Leroux sobre Goethe e um livro de Eugênio Poitou, sob o título Filósofos franceses contemporâneos. 
Com mais detalhe diz noutro momento que leu, entre 1868 e 1869, Max Müller, Renan, Bréal, Michel Nicolas, os dois Burnouf. Mais tarde teria lido as Paroles de philosophie positiviste de Littré (várias vezes elogiosamente evocado por Cruz e Sousa nos seus poemas), a História da literatura inglesa, a Filosofia da arte na Grécia, além de dois volumes de Taine (consagrados a Itália e aos Países Baixos). Fala também, reportando-se aos livros lidos no seu círculo de amigos no Recife, de Buckle, Comte, Vacheron, largando depois Comte “por amor a Spencer, a Darwin, a Haeckel, a Büchner, a Vogt, a Moleschott, a Huxley”. Uma parte significativa desta bibliografia (a menos recente) cruza-se com a das nossas fontes. A maioria, de facto, reporta-se a um novo mundo já – que chegava a Angola vindo principalmente de Lisboa e Coimbra, ou de outros portos europeus - como se vê, sobre todos, por Alfredo Troni. Durante a segunda metade do século XIX o fluxo de letrados, oradores, escritores e intelectuais foi aumentando. Mesmo que a maioria ficasse poucos anos, a sua presença implicava convivências que passariam também pela troca de bibliografia e de informação bibliográfica. Para verificar e confirmar os títulos significativos, porém, não precisávamos, pelo menos nesta fase, de consultar fontes externas, pois tínhamos jornais nossos (publicados aqui) e, principalmente, o acervo da antiga Biblioteca Municipal de Luanda, iniciado com contribuições de peso de escritores e professores como Alfredo Troni e Salles Ferreira, Urbano de Castro, etc.. Ou seja: para essa época podíamos mesmo saber que livros leram ou possuíram em Luanda os protagonistas do nosso acanhado meio literário, em muitos casos ainda podíamos consultar os exemplares que deixaram.

Embora o meio do século tenha marcado uma viragem que nos iria distanciar gradualmente do Brasil, ao mesmo tempo em que se avançava para formas novas de colonialismo, os laços mantiveram-se fortes o suficiente para que transitassem ainda algumas obras entre o Rio de Janeiro, por exemplo, e Luanda. Os sentidos anúncios de falecimento que de vez em quando se publicavam no Boletim oficial angolano dão-nos um exemplo disso. No n.º 12, de 18 de março de 1865 (p. 57), resume-se a vida de um jovem “honesto, sisudo e de fino porte”: Ernesto Augusto Gambôa, nascido a 5.12.1843 e que morria, portanto, com 21 anos.

Ernesto Augusto Gamboa pertencia à elite crioula urbana de Angola. O pai era o tenente-coronel Joaquim Olavo Gambôa, subscritor do Tomo I de O recreio: jornal das famílias (Anónimo, 1835 p. 312). A 28.5.1850 recebia “Instruções” enquanto Capitão do Batalhão de Infantaria de Linha de Luanda e em 1858 ainda estava nesse posto; em 1861 era Major Comandante da Companhia de Caçadores n.º 2; nomeado Chefe do Ambriz em 28 de Março desse ano, foi exonerado a 27.11.1862. Tornou-se Tenente Coronel em 1866. A mãe chamava-se D.ª Francisca Joaquina do Amaral Gambôa, descendendo de outra ilustre família do século XIX angolense (Amaral). O malogrado jovem teve, pelo menos, um meio-irmão (natural de Luanda), que pediu passaporte para ir a São Tomé em 1885, na altura contando 41 anos. É justamente a duas senhoras da família Gambôa que, nos anos 50 do século XIX, o lírico português Ernesto Marecos dedica três poemas de motivação luandense.

Ernesto Gambôa mostra-nos então porque caminhos passava a formação de um jovem da elite luandense na época: 
tinha já feito diversas viagens à América, Lisboa e Rio de Janeiro onde foi educado, e adquiriu muitos conhecimentos e prática da sociedade [.../] Entre outros estudos tinha-se dedicado ao da língua francesa que sabia com perfeição, e ao desenho. 
O seu primeiro emprego era típico do início de carreira de um crioulo dali (urbano, portanto) naquele tempo e durante toda a segunda metade do século: começou como “amanuense da repartição das obras públicas, e depois acumulou o de desenhador da mesma” (este o traço específico, desenhador; amanuense o traço comum, fosse das obras públicas ou de outros setores).

O resultado destes intercâmbios se materializava ainda em livros e periódicos, como “O Doze de Agosto / revista Luso-Brasil.ª / jornal político, religioso, de notícias e literatura” anunciado no próprio órgão do Governo-geral. Sublinhe-se que um dos propósitos da publicação consistia em contribuir para o estreitamento das relações entre as “províncias d’além-mar”, Portugal e Brasil. Em 1865 o mesmo Boletim oficial anunciava que “saiu à luz a Gramática da língua nbunda ou ngolense”, estando para publicar-se o Dicionário respetivo[1]. Os autores, como sabem os estudiosos da literatura angolana, eram Saturnino de Sousa e Oliveira, médico brasileiro nascido em Coimbra e muito conceituado no Rio de Janeiro, e Manuel Alves de Castro Francina, angolano. Foram obras, quanto aos seus autores, angolano-brasileiras.

Manuel Alves de Castro Francina também tinha viajado muito. Por exemplo em Março de 1865 chegava a Luanda como “empregado público” vindo de Lisboa no “vapor inglês norfolk”, com três curiosas companhias: “J. N. de Figueiredo, artista”, “P. F. Machado, sem emprego” e “J. B. Ferrão”, incluído no grupo dos “caixeiros”[2]. Qualquer dos dois últimos (e sendo P. F. Machado um miúdo com 5 anos, se não era algum tio homónimo), como se sabe e se terá lido no primeiro volume de Kicola, foram poetas significativos no panorama literário angolano da segunda metade do século XIX. Francina seria logo em seguida referenciado como “oficial da secretaria deste gov.º geral”[3], sendo o chefe da 2.ª Repartição da secção civil[4], depois de ter sido “Oficial menor” (nomeado a 7.12.1848) e “Amanuense”[5]. Na verdade, foi “o oficial mais antigo da secretaria do governo-geral”, onde trabalhava desde 1842, tendo exercido por vezes funções de “oficial-maior daquela secretaria, e até mesmo as de secretário do dito governo”[6]. A 17.6.1847 mudara o seu nome de Manuel Alves de Castro para o que lhe conhecemos hoje, pois, “filho de Manoel do Nascimento e Oliveira, declara que, tendo um Primo com o mesmo nome, passa d’ora em diante a assignar-se Manoel Alves de Castro Francina”[7]. Em Julho de 1848 era secretário da Direção “encarregada da festividade de N.ª Sr.ª dos Remédios”[8]. Em 1852 era “Oficial Menor” da “Secretaria do Governo Geral da Província”, que passou a ter como Secretário Eduardo Augusto de Souza[9], parente de um dos versejadores residentes do Almanach de lembranças e funcionário da Alfândega em Benguela. Só por despacho do Rei, de 20 de fevereiro de 1865, é que definitivamente ficou graduado como “oficial maior”[10]. Alguns meses depois assinava um anúncio no Boletim oficial como “chefe da 2.ª repartição”[11]. Fazia ainda parte da comissão administrativa do “recolhimento pio de D. Pedro 5.º” em Luanda[12].

A obra de Saturnino e Francina mostra que, apesar do fosso que se ia cavando entre Angola e Brasil, ainda assim se mantinham relações culturais frutíferas e misturadas com a circulação de portugueses. As fontes disponíveis em Angola não desmentem esta visão do momento, pelo contrário, foi recorrendo a elas que demos conta dos factos enumerados. Portanto, as fontes brasileiras eram válidas ainda mesmo depois de 1850, embora em menor grau. Mas, tal como acontecia para as portuguesas, elas não me faziam falta já, uma vez que havia fontes locais com pistas mais precisas acerca do que efetivamente se lia, ou pelo menos estava nas bibliotecas e na memória cultural dos membros da nossa comunidade literária.


Face à falta de fontes angolanas equiparáveis ao Diário de Pernambuco do Recife, mesmo para a segunda metade do século XIX, recorri a velhos arquivos de processos orfanológicos de Benguela, aos livros ainda existentes na Biblioteca da Administração Municipal de Benguela e do Governo Provincial de Luanda (bibliotecas das antigas Câmaras Municipais, a de Luanda fundada a 1 de Dezembro de 1873) e aos registos de livros antigos do Arquivo Histórico Nacional, em Luanda também – especialmente do fundo chamado “Antiquária” – sendo que esta fonte possui os indícios menos seguros e não me foi permitido, na altura, consultar todos os seus ficheiros. Os jornais da segunda metade do século dão-nos índices complementares, por citações que por vezes os articulistas fazem, mas não têm o préstimo das páginas do Diário de Pernambuco. Não consegui, até hoje, consultar os inventários orfanológicos guardados em Luanda – o que não fica nada bem a quem toma conta deles.

Infelizmente, os processos orfanológicos de Benguela, para além de sofrerem com a incúria, a humidade, o bicho, o tempo, também sofreram com investigadores(as) menos escrupulosos(as), que desviaram muitos deles contando para isso com a inépcia e a ingenuidade (cultural ou ideológica) das autoridades da época. Por tal motivo, só me foi possível encontrar inventários de bens a partir do ano de 1855 e, mesmo assim, depois de furar com muito custo as dificuldades constantemente criadas por funcionários do Tribunal com fins inconfessáveis. Abri-os e estudei-os entre panelas, pratos (os almoços dos funcionários eram feitos ali e eu saía para que eles comessem com privacidade), restos de comida, bicharada de toda a espécie e muita poeira. Estas condições de investigação, que não são as melhores, limitaram e fizeram arrastar bastante a pesquisa. O desvio de material anterior fez com que, para os primeiros cinquenta anos do século, calculasse por analogia com o Recife e Rio de Janeiro a bibliografia existente.

A bibliografia oriunda diretamente da Europa, em especial de Portugal, aumentava consideravelmente conforme nos aproximávamos do século XX. A primeira notícia de envio de livros relevantes assinalada na segunda metade do século é relativa a 1852. A 11 de Março, António da Silva Tuchio recebe, na Biblioteca Nacional de Lisboa, por mandato do Bispo de Angola, uma série de obras, cujas datas de edição preenchem um vasto arco temporal (1577-1819), mas sobretudo ocupam o período de 1740 a 1800. São obras clássicas: Cícero, Cornélio Nepote, Fedro (um dos livros de Fedro desapareceu, não tendo sido entregue em Lisboa, embora constasse da lista), Quintiliano, Tito Lívio, Virgílio. Pontuavam, naturalmente, a lista os Padres da Igreja e outras figuras tutelares do catolicismo: Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Anselmo, São Bento, São Bernardo, São Francisco de Sales, São Jerónimo, Fr. Luís de Granada, Santa Teresa de Jesus, São Tomás de Aquino e outras autoridades mais recentes, de motivação católica, nelas incluídos os sermões, especialmente os do padre António Vieira, mas não só. O sermão era uma espécie fundamental no contexto do ensino e das práticas de uma sociedade religiosa, no caso da literatura porque fazia a ponte entre a teologia, a dogmática e a retórica, a eloquência. Havia várias obras teológicas (a maioria do século XVIII), como a obra-prima de Bossuet (Exposição da Doutrina da Igreja Católica, 1768), Berti (Teologia, 1777), Signori (Obras Teológicas, 1763), Bailly (Tratactus de Ecclesia Christi, 1776; Tractatus de Vera Religione, 1781), etc.. Para ler tudo muito bem, vinham os “Novos Methodos” do padre António Pereira – cujas opiniões literárias adiante comento e de que um dos exemplares também não foi entregue. Nota com interesse para os estudos literários é a da comparência de vários títulos relativos à Eloquência e à Retórica, disciplinas aliadas à criação poética e literária (Diálogos de Eloquência, Retórica em português e em latim).

O quadro geral era restrito, para além de envelhecido e não foi a primeira vez que a Igreja representou na colónia uma componente cultural conservadora, mesmo no que diz respeito ao estilo e às correntes literárias. Há um classicismo católico, notável ainda no sólido estilo do Cardeal Alexandre do Nascimento e do romancista católico português, seu amigo, Francisco Costa. Ele vigorou até muito tarde em Angola. Pelo que me contou, em conversa pessoal, Tomás Jorge, a poesia do pai de Mário António, que o próprio filho refere (“E, prolongada na minha, a tua poesia”), era escrita nesse estilo conservado, propagado e praticado no seminário. Os poemas mais antigos de Óscar Ribas e ainda um volume de sonetos inéditos de Jorge de Macedo, escritos na mocidade sob influência do seminário, refletem o mesmo estilo conservador – que, de quando em quando, assomava nas páginas da revista Angola da Liga Nacional Africana e veio a marcar o primeiro livro de Geraldo Bessa Victor, ainda alguma da produção posterior também. Pela importância e duração que teve (e parece recuperar) o papel da Igreja na cultura da época em Angola, ao legado clássico teremos que dedicar alguma atenção mais adiante, para compreendermos devidamente o ambiente bibliográfico sobre o qual se ergueu, tantas vezes com sobriedade clássica, a nossa prosa dos primeiros 30 anos do século XIX, principalmente incluídos nela Joaquim António de Carvalho e Menezes e Manuel Patrício Correia de Castro.

Para termos uma ideia dessa importância e desse papel, podemos ler o anúncio colocado no Boletim oficial por António J. do Nascimento, secretário do corpo professoral do Seminário de Luanda. Comunica ele que, a 13 de Fevereiro de 1865, decidiu o corpo docente que “matérias e disciplinas” devem ser ensinadas. Eram 
distribuídas pelas cadeiras seguintes: a de teologia dogmática, direito público e canónico a cargo do rev.º cónego magistral; a de teologia moral e história sagrada e eclesiástica, a cargo do rev.º cónego António José do Nascimento; a de teologia pastoral e eloquência sagrada, a cargo do reverendo Deão; servindo para compêndio das mesmas disciplinas aqueles que atualmente estão adotados no seminário do patriarcado de Lisboa, de quem este bispado de Loanda é sufragâneo. 
O quadro curricular combina com parte significativa das nossas fontes e mais do que se pensa a partir da transcrição, pois os professores dariam também aulas de 
elementos de geografia, filosofia racional e moral, princípios de direito natural, retórica, poética e literatura clássica 
– assim que houvesse número suficiente de alunos. Este quadro combina-se com outro, referido por Martins dos Santos, relativo à abertura do seminário-liceu em novembro de 1861. O quadro curricular incluía “Ciências eclesiásticas”, Filosofia, Francês, Cantochão e Música (disciplinas separadas). Ainda não se lecionavam as aulas de Geografia e de Oratória Sagrada por falta de compêndios[13]. Mais uma vez, as fontes locais e o seu estudo nos dão pistas precisas e diretas que nos conduzem à frequência bibliográfica mais exata dos alunos que se formavam em Luanda, continuando a justificar que, nesta fase da pesquisa, ainda não seja necessário consultar fontes externas.

Mas as importações eram da mais diversa origem. Uma burguesia rica procurava também ser esclarecida, ou manter-se esclarecida, prolongando uma tendência que, para o fim do século XVIII e sobretudo princípios do seguinte, já registara o historiador angolano Carlos Pacheco. Fê-lo principalmente ao comentar o espólio bibliográfico do padre angolano Manuel Patrício Correia de Castro (1789-1833), eleito local à Constituinte portuguesa em 1822. Mas lendo Joaquim António de Carvalho e Meneses, o primeiro jornalista e polemista angolano, escritor político astuto e avassalador, a par dos estudos de Pacheco sobre ele, completa-se a ideia da circulação cultural intensa, informada e atualizada que girava com tal burguesia, classe que na altura se tornara o motor da evolução, do progresso, em todo o mundo (Pacheco, 2000). Justamente os protagonistas do nosso reduzido meio literário nos deixaram sinais disso, querendo ou não, nos inventários dos seus espólios, nas citações em livros e periódicos, na bibliografia legada a instituições públicas já para o fim do século. Daí a pertinência das fontes locais.



No livro Notícia da literatura angolana procurei mostrar que havia em Angola, pelo menos desde a última década do século XVI, as três condições básicas para a criação literária e cultural: autores, leitores e oportunidades. Toda a primeira parte do livro se destinava a mostrar isso e a mostrar, ao mesmo tempo, que tais leitores eram geralmente homens de grande trânsito, que viajavam para o Brasil, ou do Brasil, para a Europa ou da Europa, mesmo para os EUA. As pesquisas que realizei deram conteúdo concreto à visão que desenvolvo acerca da formação das literaturas – e da angolana em particular – como um processo que é ao mesmo tempo de hibridação cultural e de lenta sedimentação local de substratos vários. Não vou repetir aqui tudo o que lá escrevi, mas, no período imediatamente anterior ao que vou investigar, para testar as mesmas hipóteses e mais uma, há referências que é oportuno recapitular, precisar ou alargar. Agora convido o leitor a fazê-lo a partir dessa obra – Notícia da literatura angolana – e da secção seguinte.










[1] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial [anúncio]. 11 (11-03-1865) 52.
[2] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 13 (25-03-1865) 61.
[3] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 14 (02-04-1865) 63.
[4] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 16 (15-04-1865) 71.
[5] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 167 (09-12-1848) 1.
[6] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 18 (29-04-1865) 1.
[7] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 93 (19-06-1847) 4.
[8] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 147 (29-07-1848) 3.
[9] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 335 (28-2-1852) 1.
[10] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 18 (29-04-1865) 79.
[11] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 22 (27-05-1865) 2. Id. – 23 (03-06-1865) 2. E seguintes.
[12] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 19 (06-05-1865) 1.
[13] Primeiras letras em Angola, p. 142.

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